Ser engolido por um tubarão é o ápice do desespero: a sensação de perda total de controle, o impacto repentino e a força de algo muito maior do que nós nos puxando para a escuridão.

Quando a vida nos desestabiliza a esse ponto, o que acontece com o nosso corpo e com a nossa mente é exatamente esse "ataque do tubarão".

O Tubarão da Desregulação:-Quando a Vida nos Engole!

Imagine-se nadando em mar aberto. O dia está bonito, a água parece calma, mas, de repente, a silhueta surge do fundo. Antes que você possa reagir, você é engolido pelo tubarão. O mundo lá fora some. O que resta é a escuridão, o aperto, o pânico e a falta de ar.

Na vida real, o tubarão vem na forma de um trauma, de uma perda inesperada, do acúmulo silencioso do estresse ou de uma rasteira que o cotidiano nos dá. Quando a vida nos desestabiliza desse jeito, a nossa mente e o nosso corpo entram em um estado crônico de autodesregulação.

Ser engolido pelo tubarão da vida significa que o nosso sistema nervoso entrou em colapso. O volume do mundo fica alto demais, ou assustadoramente mudo. A ansiedade dispara o coração, o medo paralisa os pensamentos e a sensação é de que fomos digeridos pelas nossas próprias emoções. Perde-se o chão, perde-se o ar, perde-se o controle.

No estômago do predador, o desespero nos diz que aquele é o fim. Mas a psicologia nos ensina algo fundamental sobre esses momentos de escuridão: estar no fundo não significa ser o fundo.

A autodesregulação é a resposta de um corpo que está tentando sobreviver ao impacto. O susto é legítimo, a dor é real e o caos interno é o reflexo do tamanho da "mordida" que a gente levou da realidade. Mas o processo terapêutico e o autoconhecimento são o caminho de volta à superfície. É aprender a respirar no escuro, tatear as próprias forças e entender que, por mais profundo que o tubarão tenha nos levado, a nossa capacidade de autorregulação — de reencontrar o eixo, acalmar o sistema nervoso e nadar de volta para a luz — ainda nos pertence.

A vida vai nos desestabilizar. O tubarão vai aparecer outras vezes. A diferença é que, ao compreendermos a nossa mente, aprendemos que nenhuma escuridão é permanente para quem descobre como voltar a respirar

Por Geórgia Lyma 

Psicóloga & Neuropsicóloga 

Perita Judicial, Especialista em Educação