Copa do Mundo 2026 e BETs: Estamos Transformando a Paixão Nacional em Adoecimento Psíquico?
Nos últimos meses, tenho observado em minha prática clínica um aumento significativo de pacientes que apresentam sofrimento emocional relacionado às apostas esportivas online.
Ansiedade, endividamento, culpa, conflitos familiares, sintomas depressivos e, em alguns casos, ideação suicida são algumas das consequências que tenho encontrado nos atendimentos.
Diante da aproximação da Copa do Mundo de 2026, considero importante ampliar essa discussão sob a perspectiva da saúde mental.
Compartilho abaixo uma reflexão sobre os impactos psicológicos das BETs e a necessidade de um debate mais amplo sobre prevenção, responsabilidade social e cuidado com as populações mais vulneráveis.
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Por Geórgia Lyma – Psicóloga
Nos últimos anos, o Brasil testemunhou uma expansão sem precedentes das plataformas de apostas esportivas online, popularmente conhecidas como BETs. Impulsionadas por intensa publicidade, patrocínios esportivos e pela participação de celebridades e atletas em campanhas de marketing, essas plataformas passaram a ocupar espaço significativo no cotidiano dos brasileiros.
Embora frequentemente apresentadas como uma forma inofensiva de entretenimento, a prática clínica tem revelado uma realidade mais complexa. O que para alguns representa diversão ocasional, para outros pode se transformar em um comportamento compulsivo com graves repercussões emocionais, sociais e financeiras.
Em minha atuação como psicóloga, tenho observado um aumento expressivo de pacientes que relatam sofrimento psíquico associado às apostas esportivas. Os prejuízos vão muito além das perdas financeiras. São comuns relatos de ansiedade intensa, insônia, sintomas depressivos, culpa, vergonha, conflitos familiares, endividamento e perda da capacidade de controlar o próprio comportamento diante das apostas.
Do ponto de vista psicológico, o mecanismo das apostas explora processos cognitivos e emocionais profundamente humanos. A expectativa de recompensa rápida ativa circuitos neurais relacionados ao prazer e à motivação. Pequenos ganhos reforçam o comportamento, enquanto as perdas frequentemente alimentam a crença de que o dinheiro poderá ser recuperado em uma próxima aposta. Esse fenômeno contribui para a manutenção de um ciclo que pode evoluir para um padrão de dependência comportamental.
A literatura científica já reconhece o Transtorno do Jogo como uma condição capaz de produzir impactos semelhantes aos observados em dependências químicas. O indivíduo passa a dedicar tempo excessivo à atividade, perde o controle sobre os limites inicialmente estabelecidos e continua apostando apesar dos prejuízos evidentes.
Um aspecto que merece atenção especial é a vulnerabilidade social. Muitas pessoas chegam às plataformas de apostas em busca de uma solução para dificuldades financeiras, desemprego ou insegurança econômica. A promessa implícita de ascensão rápida e fácil pode ser particularmente sedutora para indivíduos que enfrentam situações de sofrimento e desesperança.
A Copa do Mundo de 2026, torna-se ainda mais importante refletir sobre a associação crescente entre esporte e apostas. Historicamente, o futebol representou um espaço de convivência, identidade cultural e emoção compartilhada. Atualmente, observa-se um cenário em que a experiência de torcer é frequentemente acompanhada por estímulos ao consumo de apostas.
A presença de ídolos esportivos e figuras públicas em campanhas publicitárias amplia a legitimidade percebida dessa prática, especialmente entre jovens e grupos vulneráveis. Embora tais campanhas sejam legais, é necessário discutir suas implicações éticas e os possíveis impactos sobre a saúde mental da população.
A questão central não é condenar o esporte, nem desconsiderar a autonomia individual. Trata-se de reconhecer que existem indivíduos suscetíveis ao desenvolvimento de comportamentos compulsivos e que a exposição constante a estímulos relacionados às apostas pode representar um fator de risco para o adoecimento psicológico.
Também é fundamental combater a ideia de que o vício em apostas decorre de fraqueza moral ou falta de caráter. Como ocorre em outros transtornos comportamentais, diversos fatores psicológicos, biológicos e sociais estão envolvidos em sua origem e manutenção. O acolhimento, a informação e o acesso ao tratamento especializado são estratégias muito mais eficazes do que o julgamento.
Enquanto sociedade, precisamos ampliar o debate sobre saúde mental, prevenção e responsabilidade social. Precisamos discutir os impactos das apostas para além dos números do mercado e das receitas publicitárias. Por trás de cada estatística existem pessoas, famílias e histórias marcadas pelo sofrimento.
O futebol pode continuar sendo paixão. A torcida pode continuar sendo emoção. Mas é preciso cuidado quando a esperança de uma vida melhor passa a depender de um clique, de uma aposta ou da promessa de um ganho improvável.
A saúde mental deve ocupar um lugar central nessa discussão. Afinal, nenhuma vitória financeira compensa a perda da estabilidade emocional, dos vínculos afetivos ou do próprio sentido de viver.
Geórgia Lyma
Psicóloga Clínica | Neuropsicóloga
Atua com avaliação neuropsicológica e atendimento clínico de adolescentes, adultos e idosos, acompanhando demandas relacionadas à saúde mental, comportamento, dependências comportamentais, transtornos do neurodesenvolvimento e sofrimento psíquico contemporâneo.